OPINIÃO: O Mal e o Estado das Coisas
Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones): Here last week they found this couple out in California. They rent out rooms for old people, kill'em, bury'em in the yard, cash their social security checks. Well, they'd tortur'em first, I don't know why. Maybe the television set was broke.
O semblante melancólico de Tommy Lee Jones (O Fugitivo), marcado pelo tempo, é a chave para compreender a filosofia residente sob o impressionante exercício de precisão técnica levado a efeito pelos irmãos Coen (Na Roda da Fortuna), neste incomum misto de suspense e western contemporâneo, acolhido por significativa parcela da crítica oficial como obra-prima incondicional.
De uma maneira tal que apenas um ator com pleno controle sobre a linguagem corporal e a modulação vocal seria capaz de alcançar, Jones expressa impotência diante da inadequação e do desarme sentidos por Ed Tom Bell, veterano xerife texano, ao mundo dos novos tempos, talado por uma avassaladora onda de violência, aparentemente descabida, ou pior, inexorável.
Pois os Coen, como é de costume, não fundiriam seus bem-dotados neurônios para colocar no mercado outra batida história de assassinos seriais ou outro thriller qualquer de perseguição, polido com um verniz típico do que chamam "cinema de arte": o interesse da dupla é refletir sobre a vigente condição da sociedade estadunidense que outrora formara o imaginário do Oeste poeirento e mítico, agora corroído pelo tráfico de drogas, pela ganância a dinheiro, enfim, pela brutalidade que resulta da conjugação desses fatores sinalizadores da decadência - moral, geral - humana.
Aberto a infindas interpretações, permeado por ambigüidades na caracterização de personagens (Anton Chigurh seria a representação corpórea do Mal, da Morte, do Capitalismo, etc.) e sutis pontas soltas do enredo (vide a aparente inconseqüência do mcguffin da maleta repleta de dinheiro), o longa poderia se resumir a um familiar pout porry dos diálogos mundanos e do humor bizarro dos realizadores não fosse o ambicioso - e conseguido - nível de elaboração da encenação: o design sonoro, apoiado na aparente ausência de trilha musical e no acentuado papel do trabalho de foley, é fundamental na criação de uma ambientação para lá de tensa e envolvente, assim como a contribuição dada pela iluminação criteriosa de Roger Deakins (Um Sonho de Liberdade), complementada pelo minucioso posicionamento de câmera.
O elenco dispensa comentários. Cada um está em seus melhores dias, talvez inspirados pelo sumo existente em papéis tão suculentos, saídos da imaginação do escritor Cormac McCarthy. Os Coen, de uma tacada, enriquecem nossa matéria cinzenta com a colocação em pauta de assuntos relevantes a serem discutidos, assaltando nossos sentidos com um tratamento estilístico audaciosamente sofisticado que testemunhamos com cada vez menos freqüência em Hollywood.
COTAÇÃO:

:::Referências:
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::Visto em 19 de abril. [Cinema]
Marcadores: 4 estrelas, Comentários



10Comments:
At Quinta-feira, Dezembro 04, 2008 1:41:00 AM,
cinevita said…
Excelente crítica! Este filme só aumenta no meu conceito. Denso, belo, urgente e composto de uma forma única.
Nota máxima.
Ciao!
At Quinta-feira, Dezembro 04, 2008 1:41:00 PM,
Vinícius P. said…
Eu já comentei outras vezes isso e vou repetir: tenho um sério problema com o desfecho de "Onde os Fracos Não Têm Vez". Não que não goste de finais em aberto (na verdade adoro), mas simplesmente por achar que não combinou com tudo aquilo que foi mostrado até então - sem falar no fato que é um tanto diferente de outros longas dos Coen. Tirando isso, é um ótimo filme.
At Quinta-feira, Dezembro 04, 2008 1:43:00 PM,
Johnny Strangelove said…
Hoje, refletindo nesse filme, sente que ele mereceu ganhar com todos os méritos o oscar desse ano. Ousadia môr para contar uma história sobre a mudança brusca de valores ...
e aquele final ... me arrepio todo ...
Entao ... eu acordei ...
At Quinta-feira, Dezembro 04, 2008 10:16:00 PM,
Otavio Almeida said…
Tenho problemas com o filme, Gustavo! Prefiro mil vezes os Coens bobões! Como os de QUEIME DEPOIS DE LER, ARIZONA NUNCA MAIS, O GRANDE LEBOWSKI, e E AÍ, MEU IRMÃO CADÊ VC.
E, sobre teu post sobre Robert Shaw... sem palavras, né? O cara é uma lenda! Spielberg é foda! TUBARÃO é um dos melhores filmes de todos os tempos! Amém!
Abs!
At Sexta-feira, Dezembro 05, 2008 9:56:00 AM,
Pedro Henrique said…
Bom texto!
E concordo com o João. Eu já acho que o filme mereceu todos os prêmios que levou. Direção acho até um absurdo de tão perfeita.
Abraço!
At Sábado, Dezembro 06, 2008 3:21:00 PM,
leandro said…
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At Sábado, Dezembro 06, 2008 6:25:00 PM,
pseudo-autor said…
É um ótimo filme, denso - como já disseram acima -, fulgurante, tem um baita vilão, mas ainda sim no Oscar eu ficaria com Sangue Negro (mexeu mais comigo!)
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At Segunda-feira, Dezembro 08, 2008 12:13:00 AM,
Hugo Leon said…
Sou dos poucos que acha BURN melhor do que esse. Mas é um grande filme também ...
At Segunda-feira, Dezembro 08, 2008 12:19:00 AM,
Gustavo H.R. said…
Sangue Negro foi o filme mais aclamado do ano passado, de acordo com a compilação do site They Shoot Pictures, Don't They?. Encomendei o Blu-ray dos EUA, mas ainda não pude ver.
Já de Queime, não gostei muito não, esperava mais.
Cumps a todos.
At Segunda-feira, Dezembro 08, 2008 5:29:00 PM,
Robson Saldanha said…
Fantástico e surpreendente, mas não consegue agradar a todos!